Mulheres indígenas: construindo territórios no campo e na cidade

Por: Eliz Pankararu

 

Sinto e vejo minha vida constituindo-se como uma teia tecida por mãos poderosas, velozes e lentas que, pausando, acelerando, de nó por nó, cria novo vínculo, um outro ponto com outro pedaço, outra parte, outra porta

Dedico este texto às nossas velhas avós Antônia e Faustina. 

 

Nascer e crescer, estar no campo, na vida, em uma terra cheia de ruralidades é nossa experiência de vida no território cheio de tradicionalidades, de pluralidades coloridas, movimentos lentos e de múltiplas imagens, vozes e silêncios. Esse é o retrato da minha infância, das idas e vindas entre minha aldeia e a margem do Rio São Francisco. Um balaio de muitas mulheres cheias de sorrisos e olhares firmes, no cotidiano do plantar, do alimentar o conjunto de vidas ao seu redor, lavar a roupa cantarolando nas pedras do rio, dar direção para o conjunto de quem somos, o “nós”. A tradição se construiu no fazer e refazer do que sempre foi cheio de prazer. Os afetos, os desafetos, as sementinhas que foram plantadas e crescidas, o friozinho da brisa da chuva, do rio, o calor exacerbado do sol sertanejo queimando nossa pele, secando nossas roupas para cada nova jornada.

Sou Pankararu, mulher filha de Geni, neta das Velhas Antônia e Faustina, originária da mistura viva do povo indígena e negro que criou raízes no sertão de Pernambuco. Somos conjuntos, famílias Pankararu que viviam nas aldeias do Território Indígena em meados da década de 1960, 1970 transitando livremente entre as serras das aldeias e a margem do Rio São Francisco no Sertão de Pernambuco, especialmente em períodos de longa estiagem, onde a seca impossibilitava a produção artesanal dos bens básicos necessário à reprodução da vida: a batata, a macaxeira, o feijão, o milho, o caju, a manga, a pinha, o umbu, o murici, nossos alimentos.

Migrar para a margem do rio em tempos de seca representava novas experiências de acesso livre ao rio, à água, mesmo longe da terra de origem – a aldeia, o acesso à riqueza viva do rio ganhava um significado especial na continuidade da vida simples, baseada na produção artesanal, coletiva do viver.

A chegada da barragem da Usina Hidrelétrica de Itaparica, na década de 1980, impacta diretamente nesse movimento de idas e voltas e acesso livre ao rio. A elevação das águas, a inundação de nossos ranchos radicalizou nossas vidas. As famílias indígenas Pankararu, das velhas mulheres Faustina e Antônia, perdem acesso às terras onde plantavam e pontos onde pescavam, cuidavam dos conjuntos. Passam a integrar as redes locais de assalariamento, vender a força de trabalho. Um ponto foi rompido, desconectou fisicamente nossas vidas das águas do Rio São Francisco. Outros pontos objetivos foram criados, pontos espirituais fortalecidos.

Muitos outros pontos nos vincularam a outros territórios. Reinventamos nossas vidas, a partir das múltiplas dores dos rompimentos. Entre nós, algumas retornaram para as aldeias, outras ganharam o mundo, atravessando os novos pontos, instalando-se em novos espaços. 

A vida urbana, na sua complexidade e formalidade, entrou em nossas vidas, nós realizamos mais passos para dentro da dinâmica de viver na cidade. O viver sobre o concreto, o viver entre as ruas, o viver entre as filas, entre as cadeiras, entre as fichas, entre as listas, entre os múltiplos cálculos do que foi dito, do que pode ser dito, do que não deve ser dito. Outros estranhos pontos.

Entrar e estar no lugar, no cotidiano da vida urbana, tem sido para nós, que caminhamos nesses pontos do que foi e do que passou a ser nossa vida, a constante caminhada pelos vínculos de origem, de mãos dadas com nossa ancestralidade. Encontramos novos significados para o que a vida cotidiana é e pode representar para nossas tradições e nossos novos vínculos que constituem nossas identidades.

Os pontos de ontem estão ligados aos pontos de hoje, a energia ancestral e os pontos de ligação com o conjunto dos encantos e Força Encantadas da nossa Terra Mãe, dos nossos terreiros, da presença viva de nossas velhas, cravadas nas memórias e em nosso modo de ver e interagir com o mundo, nossas avós, mães, nos levantam e nos permitem levantar novos territórios. Nossos corpos são esses territórios não materiais onde os pontos se instalam e nos acompanham por onde formos.

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