Carta aberta a Mayra Cardi

Por: Juliana Nóbrega 

Prezada Mayra,

Quero lhe dizer que você não tem culpa. Você não tem culpa de nada. Uma das frases mais célebres do livro O Pequeno Príncipe, a que diz que somos eternamente responsáveis pelo que cativamos, está sendo frequentemente mal interpretada por uma sociedade que cultua o individualismo e desvirtua o conceito de autorresponsabilidade. Você não tem culpa.

Vão te perguntar, com tom de cobrança, por que você ficou com ele tanto tempo, por que você se sujeitou, por que deu tantas chances. Mas não aceite essa cobrança. Quem nunca viveu em um relacionamento abusivo (se é que tem vida dentro dele…) tem dificuldade de compreender a dinâmica de um.

Sim, Mayra, as pessoas são responsáveis pelas expectativas que criam em nós. Assim como nós também somos responsáveis pelas expectativas que geramos. Todo relacionamento, independente da natureza, é construído por expectativas. Quando a gente é contratado por uma empresa, é porque geramos expectativas nela, e ela em nós. Quando a gente resolve juntar nossa vida a alguém, é porque essa pessoa gerou expectativas de que valeria a pena, e nós, da mesma forma, também geramos nela a mesma expectativa. Não existe relacionamento sem expectativas. É por causa delas que investimentos numa relação, e é pela frustração delas que as feridas se abrem. Você bem sabe disso. Eu também.

Claro, existe quem reproduz no outro a responsabilidade de preencher os seus vazios, de curar suas feridas, de ser alguém idealizado. Mas não é sobre isso que estou falando. É sobre cumprir promessas, é sobre ser leal e honesto com a outra parte. 

O problema é que quando falamos disso com abusadores, eles caçoam de nós. Sabe por quê?! Porque as expectativas criadas com falsas promessas são as armas dos abusadores. Eles se regozijam do seu poder de persuasão. Eles se divertem com o acesso que conseguiram vilmente às nossas fragilidades, e se lambuzam no prazer de nos manipular.

Essa descoberta é a parte mais dolorida do processo de desintoxicação. Compreender que tudo era falso. Cada bom momento, cada boa lembrança sobre um relacionamento abusivo é apenas ilusão, era só uma expectativa sendo criada ou alimentada. Só havia você ali, o relacionamento era entre você e as expectativas criadas por ele. Aliás, expectativa é a única coisa que um abusador tem a oferecer. Fora isso, nada mais.

Por tudo isso, não se culpe. Não se responsabilize por quem usou sua boa fé contra você. Já nos bastam os prejuízos de todas as ordens advindos dessa relação. O fardo da culpa pelo nosso inferno provocado a gente não precisa levar.

Também não sofra pelo novo relacionamento dele. Lembre-se, não é um relacionamento, é uma parasitose! Essa pessoa que foi levada a crer que com ela seria diferente é mais uma vítima, tal qual você foi um dia. Mais cedo ou mais tarde, ela também se juntará à sua dor, e sofrerá pelas mesmíssimas razões.

O ciclo se repete. Ele narra uma história tão bem ajustada, que muitas vezes vai parecer que você é mesmo a personagem má que ele inventou. Ele conhece as suas reações, e ele te expõe a elas para que você vista, como numa tragédia anunciada, o figurino que ele desenhou.

E depois virá outro espetáculo, e outro.

É tudo muito triste, mas estamos juntas. Precisamos conversar sobre isso para expurgar nossa dor, nossa indignação, mas também para ajudar outras mulheres e meninas. Saiba que quando expomos os abusadores, estamos educando a nossa sociedade para dizer que não aceitaremos essas condutas, que abusar de outrem tem consequências. Quando expomos os abusadores, ajudamos às nossas filhas, às nossas sobrinhas, às amigas delas.

Por isso, não se culpe. Não creia que é exposição. É justiça para nós e livramento para as que virão! O show tem que parar!

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