Sobre Thelma e a vitória do povo preto

Por: Andila Nahusi 

Você provavelmente ouviu falar em algum momento da edição do Big Brother Brasil deste ano. Seja por conta das dezenas de memes, pelos vídeos espalhados em todas as redes sociais, pelas pautas efervescentemente discutidas dentro e fora do jogo. Pela primeira vez, o BBB foi assunto até em jornal de horário nobre na TV Globo. 

No entanto, eu, Andila, mulher negra, não estou aqui para falar sobre o quanto o programa atingiu em audiência. Estou aqui para falar da vencedora do reality, Dra. Thelma Regina, ou, para os entendedores e espectadores do jogo, nossa Thelminha. Preta, 35 anos, filha adotiva, nascida na periferia de São Paulo, passista de samba da Mocidade Alegre, médica formada, sendo a única negra da universidade que estudava. 

E por ser mulher negra, como eu, foi desacreditada inclusive por seus adversários de jogo, que diziam que ela nunca seria cogitada como campeã. Thelma ficou um bom tempo isolada no início do jogo. Dentro do BBB, Thelma foi chamada de planta, ou seja, de jogadora inconsistente. Sofreu a solidão e o abandono de pessoas que outrora tinham se aproximado dela. Precisou se recuperar da rejeição, refazer alianças e laços para seguir sua trajetória no reality. Defendeu o único jogador negro além dela, Babu Santana, de acusações infundadas e veladamente racistas. 

Fora do jogo, em seus perfis, sofreu milhares de ameaças e ofensas racistas. Também foi desacreditada por centenas de anônimos que afirmavam sem dó que uma preta nunca ganharia esse prêmio. Assim como tantos de nós, negros e negras, somos desacreditados em todos os espaços aonde vamos e queremos ser visibilizados.

No entanto, não contaram com a integridade, com a perspicácia e sabedoria de Thelma. Coerente em seus princípios, ela mostrou que em nenhum momento do jogo esqueceu de onde vinha e aonde ela queria e merecia chegar. Demonstrou sua fé e fibra. Uma garra inabalável que inspirou tantas meninas e mulheres que enxergaram nela uma representatividade tão bonita. 

Assistindo a final deste BBB, pela primeira vez eu chorei de emoção. Eu vibrei ao ver Thelma recebendo a notícia que teria sido a contemplada. Eu chorava e gritava como se eu mesma tivesse recebido a vitória. E eu recebi. Porque para nós, povo preto, quando um ganha, todos nós ganhamos. O que isso tudo significa para nós vai além de minutos de euforia dentro de um programa de TV. Reforça que somos capazes. E mostra pro mundo que é o racismo que nos sabota, pois somos tão  merecedores quanto. Nos aponta que, dentro de um país que genocida ao povo preto, a gente pode sim alcançar o topo. 

E acreditem, a gente estava precisando dar esse grito. A gente estava precisando mesmo dessa glória pra poder renovar as esperanças. Pra poder voltar a sonhar como Thelma sonhou. E, principalmente, pra mostrar pra boa parte da sociedade que, quando a gente quer, a gente leva os nossos ao êxito. A gente só precisa estar junto. Alinhados. Organizados. E, a partir disso, porquê não começar a transpor toda essa articulação para outros âmbitos. Para à política, por exemplo. Fazer cair quem tem que cair. E erguer os bons. Porque a gente pode. 

E obrigada, Thelminha! Por sambar na cara da society! Por ser essa rainha! Por reacender nossa chama. Só me resta dizer: FOGO NOS RACISTAS! 

E para quem não entende o que isso significa, procure se inteirar. Porque a gente não está pra brincadeira. 

Axé!

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