O choro é livre

Por: Carol Marques

Sou do tipo que chora com legenda de Instagram, comercial de TV e até com mensagem de biscoito da sorte. Se chego a esse nível, será redundante confessar aqui minhas tempestades faciais diante dos tradicionais provocadores de lágrimas, como filmes, casamentos e canções. Aliás, faço parte daquele espectro que se orgulha do paradoxo “música triste me deixa feliz”. Uma felicidade por vezes cheia d’água. O fato é que dormi e acordei pensando na importância do choro. E na cultura contra o choro.

Lamentavelmente aprendemos em algum momento da vida que chorar é como fazer xixi nas calças. Quando criança, mandam-nos engolir o choro e nos chamam com deboche de bebê chorão ao expressarmos na forma líquida sentimentos como desgosto, decepção, medo. Isso acontece com meninas e ainda mais com meninos, o que só contribui para termos tantos machos de sensibilidade escassa. Não, não estou desconsiderando características biológicas aqui. Sei que elas existem, embora me falte conhecimento profundo acerca do tema. O que quero enfatizar é que há homens que nunca foram autorizados a chorar e reprimiram esse ímpeto ao longo dos anos por pressões culturais.

No trabalho, o choro é comumente ridicularizado por colegas; é interpretado como fraqueza e falta de controle. Pra mim, o choro é livre. E o choro é lindo. Seja a enxurrada de um desabafo ou o transbordamento de uma emoção cuja intensidade não cabe apenas num sorriso. É uma erupção, um tsunami que às vezes surge com trovões e até terremoto ósseo. Um fenômeno da natureza em pequenas dimensões. É poesia da alma escorrendo pelo rosto. Quando vem por desalento, ajuda no processo de equilíbrio. Desentope, cura. Revela a magnitude de uma dor (ou de um erro) e acelera uma reação para evitar que aquela melancolia continue a avançar com tanta força. É um pranto de basta.

Nos momentos mais difíceis que enfrentei, fui pro cantinho de parede dos meus bastidores e “chorei até ficar com dó de mim”, como na letra de Chico Buarque. Em seguida, em todas as situações, enxuguei o rosto inchado e me propus soluções. Como se o rio lacrimal tivesse lavado a vidraça turva do olhar e me feito enxergar as saídas no vale da desilusão. Precisamos entender que o respeito ao próximo abrange o respeito às gotas e aos mares que escorrem dos nossos olhos. Respeitar o choro é respeitar as idiossincrasias, as cicatrizes, os afluentes de cada ser. Inclusive os seus. Da próxima vez que sentir vontade, liberte-se, descontrole-se, abra suas comportas, chore-se!

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